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"Zé
Amorim"
O
último dos barqueiros desta freguesia de Torre (São Salvador)
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De
nome completo José Manuel Alves do Esteiro Amorim, nascido a 13
de Fevereiro de 1916, é o quarto filho dum casal com seis (três rapazes e três raparigas). Faleceram-lhe dois irmãos,
crianças de tenra idade, e uma irmã, jovem de 23 anos. As
outras duas irmãs, de nome Teresa e Maria Rosa, faleceram
respectivamente com 90 e 87 anos em Fevereiro e Julho de 2001. Criança
ainda, sofreu as agruras da primeira grande guerra, que decorreu
entre os anos de 1914 e 1918, experiência que se repetiria na
juventude, com efeitos bem mais palpáveis, no decurso da
segunda grande guerra, entre os anos de 1937 a 1945.
Em
finais da década de 1920 e princípios da de 1930, como
ajudante de pedreiro, trabalhou graciosamente na construção da
Residência Paroquial, altura em que o cruzeiro, trazido de
junto do Adro da Igreja para o actual Calvário, ainda se
encontrava na bifurcação do caminho da Igreja com o do Casal,
em frente ao local onde foi construída a residência e que dali
fora mudado para junto do Adro em 1940, em comemoração do
oitavo centenário da Fundação, e terceiro da Restauração de
Portugal com placa de mármore colocada na face frontal da
Igreja junto à porta, do lado Norte, com os dizeres evocativos
dos eventos; altura também em que o caminho da Igreja, para os
lugares do Souto, Esteiro, monte e Cheira, era pelo caminho do
Calvário (calvário velho) hoje Rua do Calvário, pois o
caminho que viria a ser transformado em Avenida da Igreja, só
foi aberto aquando da construção da Linha do Vale do Lima,
paralelo a esta, o que aconteceu já dentro da década de 1930.
Foram estas duas vias (Linha e Caminho) que, juntas, permitiram
a construção da actual Avenida da Igreja, no ano de 1997.
Entre
os anos de 1932 a 1936, com pouco mais de 16 anos deslocou-se
para Coimbra e Alcobaça onde trabalhou de servente, ajudante e
aprendiz de pedreiro. Em Janeiro de 1937 assentou praça na
marinha, não fora ele filho e neto de barqueiros.
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Quando marinheiro no Navio - Escola
Sagres
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Como
marinheiro, fez a sua instrução no Navio Escola Sagres, a
bordo do qual partiria a 2 de Outubro de 1937, em viagem até ao
Brasil onde atracou no Porto de Santos, cidade que visitou bem
como a de São Paulo, isto depois de ter passado pela Madeira e
de ter feito escala de 20 dias em Cabo Verde. Chegado
a Santos a 23 de Novembro de 1937, dali partiria no dia 2 de
Dezembro rumo a África, costa que ladeou até Angola, tendo
chegado a Mossamedes no dia 31 desse mês; de 17 a 20 de Janeiro
de 1938 atracou e fez escala nos portos de Bengala, Lobito e
Luanda, de onde partiu para São Tomé e Príncipe tendo ali
chegado no dia 26 de Janeiro, depois de ter andado alguns dias
à deriva por motivo de forte ciclone. De São
Tomé regressou a Lisboa, onde chegou a 25 de Fevereiro de 1938
depois de ter passado e feito escala na Guiné e nas Ilhas Canárias,
onde permaneceu alguns dias.
Em
Outubro de 1938 partiria em nova viagem até ao Brasil, com a
mesma rota da viagem anterior, tendo porém como destino o Rio
de Janeiro onde permaneceu 13 dias o que lhe permitiu visitar e
conhecer os célebres “Corcovado e Pão de Açúcar”. O
regresso a Lisboa foi feito seguindo a rota da primeira viagem.
Em
Outubro de 1939, iniciou a terceira e última viagem ao Brasil,
seguindo a rota das duas primeiras, mas com visita e permanência
nas cidades de Pernambuco e Recife. Nas
três vezes que navegou até ao Brasil, teve oportunidade de
contactar com alguns conterrâneos que para ali tinham emigrado
e que foram visitar o navio.
No
decurso das três viagens, por causa da guerra que decorria,
navegavam de noite com as luzes apagadas para não serem vistos
e atacados pelos beligerantes. De dia não o eram por o navio
ter bem visível o pavilhão português e o nome “Portugal” Por
volta de 1942 tirou a cédula marítima para ingressar na
Marinha Mercante, mas foi dissuadido de o fazer por causa da
guerra que decorria.
Depois
de passar à reserva, deslocou-se para Sesimbra, Seixal, Trás
os Montes, Vimioso etc. onde trabalhou na construção civil.
Nos terrenos da família trabalhou, ainda e por sua conta, na
extracção de minério (estanho) dado a procura que ele tinha,
motivada pela guerra. Porém,
com o fim da guerra e como tinha a cédula marítima e era filho
e neto de barqueiros, como já se referiu, virou-se para o Rio
Lima por volta de 1944/1945, rio onde chegou a possuir quatro
barcos ao mesmo tempo, um dos quais de grande porte.
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Em baixo, do lado direito, numas das digressões
fluviais aquando das habituais sardinhadas feitas no Esteirinho
- margem do Rio Lima - com os Padres e Seminaristas
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No Rio dedicou-se:
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À passagem de pessoas, animais e bens entre as
freguesias de Torre (São Salvador) e Deão;
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À extracção de areia e areão que carregava à pá,
para os barcos nos extensos areais e transportava para o cais térreo
do Poço do Esteiro, de onde eram descarregados e carregados,
também à pá, para camiões que faziam o seu transporte até
aos locais das obras, e
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À pesca da lampreia e do sável, e também de outras espécies
menos importantes como o barbo e a tainha.
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Com seu sobrinho
António e um colega (seminaristas), o Pároco da Freguesia (Padre
David) e o iluste Professor José Joaquim Vieira da Costa numa
das merendas nas margens do Lima
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Em
1952 construiu junto ao Rio Lima, no local onde acostava os
barcos da passagem na entrada do Poço do Esteiro, uma barraca
de madeira para recolha e guarda das artes da pesca bem como dos
utensílios utilizados na passagem e na extracção da areia e
do areão. Hoje esta barraca já não existe, pois foi desfeita
por volta de 1993/1994, mas ficou perpetuada num dos mais belos e idílicos
postais ilustrados da Ribeira Lima, no qual ela serve de pano de
fundo ao par de namorados que pastoreia e borda nas margens do
encantador Lima.
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O postal com a barraca de fundo
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Em junho de 1960, com passaporte de turista, não fugiu à regra, e
emigrou para França onde trabalhou até Dezembro de 1972, vindo
todos os anos a Portugal, de Dezembro a Abril para se dedicar à
pesca da lampreia e do sável, a sua grande paixão, e fazer alguns
trabalhos agrícolas, nomeadamente a poda das vinhas próprias.
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Transportando um ferro para a vinha
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Com a
sua ida para França trabalhar e com o aparecimento de
maquinaria apropriada, como dragas e rectroescavadoras com pás,
a extracção manual, o transporte por barco de areia e areão
foi abandonado.
Com o
aumentar dos meios de transporte próprios (automóveis e
outros) e dos transportes públicos entre Viana e Ponte de Lima,
por Deão, e a inauguração da ponte sobre o Rio Lima em
Lanheses, em 1981, a passagem de pessoas animais e bens entre
Torre (São Salvador) e Deão deixou de ter expressão que
justificasse a sua permanência com a ocupação constante de
uma pessoa pelo que cessou a sua actividade.
Com o
avanço dos anos, a que ninguém consegue furtar-se e a
consequente diminuição de forças, a pesca viria também a ser
posta de parte nos inícios da década da 1990, embora com
bastante mágoa, não fora ela a sua grande paixão, pela qual
pernoitara muitas vezes sobre as águas do Lima, dentro do
barco, ou nas suas margens em tendas (barracas de madeira)
improvisadas para o efeito.
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Com
a família, no seu 87º Aniversário
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E
assim, de forma simples e resumida fica descrita a vida do último
dos barqueiros do Rio Lima, que, no seu tempo concorreu
desinteressada mas afincadamente para a construção da história
da nossa queria freguesia de Torre (São Salvador). Faleceu em 5
de Fevereiro de 2007 e deixou saudades na família e amigos que
com ele conviveram. |
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Foto actual
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Texto:
António Alves da Rocha Imagens: António Rocha e José Rocha Montagem:
António Rocha
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