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Quando tive conhecimento do projecto que colocaria São Salvador da Torre
na Internet, - para além do entusiasmo imediato – imaginei-o como
espelho, um local de encontro, lazer e desenvolvimento dos Torrenses.
Penso que cada um de nós deverá ter presente que, como Torrense, tem
uma história única para aqui contar. E não me cabendo a mim adivinhá-la... tomo então outro caminho.
São Salvador da Torre! O nome grande da terra onde cresci com a família,
na companhia dos vizinhos, próximos e distantes.
Costumo recordar em flash os
momentos em que a minha história se cruza com a deste sítio.
Lembro com muita cor e pouca nitidez os dias de festa: fora
e dentro de casa, em matizes alegres que os sentidos registaram.
Lembro os temidos foguetes (este aspecto não o alterou a idade!),
as gentes que naqueles dias invadiam o adro, a estrada, o café,
… Lembro os anjinhos em que nos tornávamos – o calor gerado
pelos ornamentos em torno da cabeça, os alfinetes à tangente, as fotografias que hoje estão amarelecidas. Lembro os
bombos, as visitas de ocasião, a procissão de velas pela linha
fora, até à escola e de regresso à igreja. O coreto cheio de música
e de homens que a escutam. Os doces, as farturas e, mais tarde, os
carrinhos de choque. E os amiguinhos que aqui se juntavam.
Lembro os passeios até ao apetecido/temido rio Lima na
companhia dos irmãos mais velhos, da mãe, dos primos que vinham
de férias da França. Lembro a moldura verde e areia, a cabana
do Amorim - Atranco - Foz.
Os dias de calor e alegria intocável!
Lembro, naturalmente, o primeiro dia na escola primária,
que era também o dia do meu sexto aniversário. Lembro o sol
tranquilo a contrastar com a profunda dor de estômago, a minha mão
colada à da minha mãe, o convite (recusado!) para brincar ao
comboínho
com os futuros amiguinhos e, inesperadamente, o encanto de ouvir a
mestra falar-nos e iniciar, assim, a minha história escrita a lápis
e papel. Depois desta hora – ao saber retratá-la – deixa de
ser feita de memórias e passou a factos:
As festas de Natal, os minutos no recreio (quantos eram?) – o
cobertinho, o leite achocolatado, o futebol e os rapazes, as
cambalhotas nos ferros (aqui eu só olhava…), as canções
novas, a Magda, a Sara, a Catarina, …
O último dia antes das férias grandes e o nervosismo antes do reinicio,
quando já tinha esquecido o sinal das contas de dividir. A
despedida dos colegas cujas famílias emigravam – as lágrimas e
o relógio escondido que não nos disse quando os veríamos de
novo.
O dia em que nevou!!! A interrupção imediata da aula e o intervalo
crescido em que tentámos esquiar na estrada… E o curto efeito
mãos congeladas que nos levou até aos escassos aquecedores
da sala de aula.
E ainda o passeio ao Sameiro e outro a Vigo, quando o destino nos
fez encontrar greve na Alfândega. Invencíveis, cruzámos a ponte
a pé! Recordo o temor gerado pelas frágeis (pareceu-me) placas
de metal sob os meus pés, através das quais eu via tirinhas de
rio Minho…
Impossível não recordar aqui as minhas professoras da escola primária que,
mais do que quaisquer outros, me formaram a níveis muito mais
profundos dos que a gramática escreve.
Lembro as épocas do ano em que a Zeza vinha a casa.
Lembro a minha primeira comunhão. O caminho para a
catequese, as sessões conduzidas pela Tia Cecília, as
brincadeiras no adro, o vestido e o penteado.
Lembro o momento sacro em que Jesus e eu fomos um só.
Lembro os dias de Páscoa e lembro as limpezas que o
antecediam. Lembro o minuto-paragem da sexta-feira Santa, o grupo
(sempre diferente) que comigo perseguia os melhores pratos de
presunto. Lembro as roupas novas que neste dia estreava, a visita
aos meus padrinhos, os remates no Esteiro e os minutos seguintes
em que era preciso regressar a mais uma semana normal.
Lembro os 11-15 anos e, numa palavra: altamente!
E lembro a hora da partida para a Universidade e, de lá, para outros rumos.
Aqui, lembro o lugar de São Salvador da Torre – o nome grande da Minha freguesia!
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