Escrevo estas linhas sentada num banco do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Apoiado nas minhas pernas está o portátil
(ou laptop, como me
habituei a chamar-lhe, mesmo em Português) e, portanto, o
intervalo de tempo que vai do pensamento ao ficheiro é mínimo.
Sempre considerei que o papel e o lápis, ou quando muito, papel e
caneta, seriam imprescindíveis para este estranho trabalho/prazer
que é a escrita. Afinal, parece que nem sempre ou então parece
que já assim não é.
Viajo de Amesterdão para o Porto. As viagens directas que ligam estas
cidades são bastante limitadas em frequência ou em preço, o que
me fez optar por esta escala. Tenho que me deslocar a Aveiro para
entregar alguns documentos e fazer outras assinaturas. Consegui
esticar os dias necessários para esta imcumbência profissional e
fazer uma pausa, uma visita a casa. Só que ninguém em casa sabe
disto… estou curiosíssima para lá chegar e poder sentir-me A
surpresa!
Ontem cheguei a casa, em Amesterdão, perto da meia-noite. Viajei desde
Bremen, na Alemanha, durante 6 horas, em três comboios e um metro
muito pausado. Num dos comboios - acabou de cruzar os céus, aqui
em frente aos meus olhos, um jacto ultra-veloz que fez tremer os
sentidos - aconteceu um facto um pouco peculiar. Saída não se
sabe de onde, ÁGUA começou a deslizar sobre a superfície da
carruagem onde viajava. Foi avançando, avançando, enquanto todos
nos entreolhámos hesitantemente, esperando um comentário que nos
ligasse, uma explicação para o que os nossos pés tocavam. Mas
nada disto chegou. Os pés tiveram que se adaptar, as malas que
viajavam no chão foram mudadas para a prateleira de cima e assim
percorremos as restantes horas de viagem.
Seis horas é exactamente o tempo que leva esta minha viagem de hoje, desta
vez num metro, num comboio, dois aviões e uma boleia de carro. São
seis horas que ligam a minha casa em Amesterdão à minha casa de
sempre.
O laptop toca uma musiquinha gira
do BECK que aqui estava armazenada, não sei bem por quem. Às
vezes escapam-me as coisas que o computador faz, ou as coisas que
preciso de fazer com o computador. Mas lá nos vamos entendendo,
quando necessário com a ajuda do Jaap, o meu colega de trabalho,
que corresponde inteiramente à imagem do marado dos computadores.
Sempre ansioso por descobrir um truque novo, sempre com uma ideia
melhor para resolver o mesmo problema.
E o que têm as imagens adoptadas da TV a ver com isto?
Um dia de manhã a Rosinha acorda nervosa porque é o seu primeiro dia de
escola. Ela tem apenas seis anos. Nessa manhã ela sente-se
inquieta e os meses seguintes, o tempo de habituação, nem sempre
correm bem. Mas a coisa vai.
Uns anos depois disto, ela está sentada no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, a escrever no laptop da empresa em que trabalha. Viaja de Amesterdão para o
Porto. É uma viagem de trabalho e sente-se grata por poder fazê-la
gratuitamente e ainda assim ter oportunidade de tirar uns dias
para ir a casa! É a primeira vez que isto lhe acontece…
Recorro a estas palavras para
introduzir … o meu pai. Porque é o meu pai e por isso me parece
muito digno de ser objecto do meu apreço formal, por palavras
escritas. Mas também porque se procuro distanciar-me do ser meu
pai, continua a parecer-me muito digno dessa mesma coisa.
O meu pai foi o meu pai. Teve um percurso que em muitos aspectos foi
natural, mas noutros talvez menos. Trabalhou e usufruiu da vida da
mesma forma como muitos de nós fazemos. Mas fez isto há bastante
mais tempo do que eu. Fez aquilo que eu agora faço (trabalhar e
usufruir da vida) há muito mais tempo do que os anos da minha
juventude. E isto, sim, parece-me uma razão muito mais sólida
para que eu o traga aqui. Trazer, hoje, o meu pai ao meu laptop
e daqui a dias, ao Portal da Torre, a freguesia dele. Trazê-lo ao
aeroporto Charles de Gaulle, onde me sento a escrever sobre ele, a meio da
minha viagem de avião de Amesterdão para o Porto. A ele, que na
sua vida nunca viajou de avião.
São alguns anos de realidades modificadas. Mas tudo se continua a tratar de
lutar e usufruir da vida. A dele, até há alguns anos e noutros
locais, a minha agora e aqui. Ele, o meu pai, e eu, sua filha.
Tudo se mantém ligado; não há corte que o tempo por si só
consiga operar.
E o que eu queria contar
acerca do meu pai gostava que fosse ele próprio a fazê-lo, com
as suas palavras. E por isso termino aqui as minhas e transcrevo
as dele, directamente do seu diário da juventude. O diário do
meu pai.
(A bateria do laptop está a
terminar e não me restam muitos minutos para a hora do embarque.
Deixo as palavras do meu pai para o próximo intervalo e revejo
agora as minhas, antes que a porta de embarque abra.)
“Contracapa
“A causa das amachucadelas foi uma briga, para evitar que
fôsse lida “one letter of miss J. G. P.C., em 26/09/3”
Jcosta
A Primeira etapa
Descrição da viagem
Partimos numa manhã sorridente de Maio, às 9 e 30 m do
dia 11, debaixo da vista dos curiosos. Saimos de Viana às 10 e
15. Passámos em Espozende às 11, na Póvoa 11 e 30, seguimos sem
novidade, e pouco depois de termos passado no Porto, onde não parámos,
fomos jantar adiante de Gaia. Acabámos de almoçar às 2 e 15 e
fomos em direcção a Espinho onde passámos às 2 e 30, passamos
depois em Ovar e Estarreja e parámos em Aveiro às 4 e 15. Foi
esta a terra mais pitoresca, e mais semelhante às cidades da
Holanda do que às portuguesas, que eu admirei. (…) Partimos às
5 com direcção a Ílhavo e a Porto de Magos, onde observei o uso
característico das mulheres usarem chapéu. - Tive mesmo a tentação
de roubar um, pois tão curiosos são. (…) A noitinha fui
assistir ao mez de Maria à igreja Matris (única igreja que eu
vi). Uma vez aí eu apesar de estar a cair com fome, estive muito
à vontade pois que logo no começo do exercício me sensibilizou
muito o cântico executado a duas vozes, por um grupo de senhoras.
(…) Terminado o mêz, fomos fazer bem ao estômago. Depois fui
provar um copo. Era só bom e mais barato não podia ser. Ao passo
que aqui se davam naquela altura $50
por um copo de zurrapa, lá davam-se apenas $25 por um copo
de néctar. Bom, e só bom. (…)
Dia 12 Segunda etapa
Saímos de manhã cêdo no dia seguinte, em direcção a
Leiria onde chegámos ás 8 horas. Parámos junto da praça do
mercado e do teatro local. Depois de darmos umas voltas, eu
separei-me para andar mais à
vontade. A certa altura perguntei pelo Sebastião e Snr. Pe. António,
como me respondessem que tinham
ido ver o castelo, eu por minha vêz, também parti na
direcção do castelo para de lá gozar um panorama surpreendente.
Quando eu subia vi que o Amaro e a Zulmira (do professor) me
seguiam; então esperei por êles, e fomos todos juntos. (Valeu-me
de alguma coisa, pois não paguei a entrada). Uma vez lá
juntamo-nos com o Pe. e Cia. Para melhor gozarmos, pedimos a uma
pequena que nos explicasse o
que víamos. (…) Partimos às 11 em direcção à Batalha, onde
chegámos às 11 e 15. Encarámos logo de entrada com o
preciosissimo monumento, que dá grande valor a Portugal tanto
pelo que nos recorda históricamente, como pelo que diz respeito
à arte. (…) Eram 2 e 30 quando saímos daquêle local sagrado.
Não posso explicar o bem-estar e tranquilidade que eu gozei
quando contemplei a preciosa relíquia histórica e artística. Não
tenho mesmo palavras que mostrem a paz e o socêgo de alma que eu
senti dentro dêsse colossal mosteiro. Será assim o céu? Pelo
que diz a Fé católica, no céu ainda há paz, gozo e socêgo
muito superiores ao que eu experimentei dentro daquêle monumento.
(…) Encontrei-me com vários rapazes conhecidos. Entre êles
Guilherme da Tôrre, Manuel Postiço e Manuel do Bento. Depois fui
comungar e assistir à Santa Missa. (…)
Chegámos a Coimbra às 11 e 15.
Depois de entrarmos na ponte fomos pelo jardim abaixo
parar perto da Estação Nova. Depois de pararmos uns fôram comer
a pensões e restaurantes mas outros ficaram (fechados na
caminheta com mêdo aos estudantes!).
Depois de todos termos ceado, por iniciativa do meu pai,
começou-se a recitar o terço em voz alta, a ponto de atrair os
curiosos para junto da nossa caminheta. Senhor me perdoe! Mas
parecia mais uma comédia do que a recitação do terço. (…)
Mas pela manhã quando acordei eu estava mais morto que vivo. Com
uma disposição tão fraca, que me apeteceu atirar-me de cabeça
ao Mondego, para afastar para longe tão má disposição. Eis-nos
no comêço do último dia, e eu tão mal disposto, mas por me
lembrar que estava em Coimbra, na Lusa-Atenas tudo se figurou tão
bem, e então senti um bem estar e uma alegria indiscritíveis!
Para que eu adquirisse alguns conhecimentos em Coimbra, tive que
me valer das minhas habilidades! (…) Quando me encontrei em
frente da entrada da Universidade no largo fronteiro (lado N.), vi
o monumento a Camões. O monumento compõe-se de uma coluna
quadrada que é encimada por uma palma de bronze e que na face
nascente tem um leão de bronze, (sem trabalhos), na face norte os
versos:
“Cesse tudo que a antiga musa canta
Que outro valor mais alto se alevanta.
Lus. Canto I Est. III”.
(…) Na impossibilidade de ver mais algum detalhe do edifício,
como era meu desejo, mas o tempo fazia-se-me pouco, toquei em
retirada com bastantes saudades, mas não havia outro remédio.
(…) Obrigado pelo mêdo de que esperassem por mim, dirigi-me
para a camioneta, muito encantado com o que vi. Só aqui, e na
Batalha. Saímos da mui saudosa Coimbra às 10-20 em direcção ao
Bussaco, mas depois de termos andado um bom par de kilómetros,
qual não foi o meu espanto quando me chegou aos ouvidos a notícia
de que não íamos lá, por não sei que motivos fúteis. (…)
Entrámos no Porto às 6 horas. Comemos alguma coisa e depois
acompanhado pelo Américo fui ver o palácio da Bolsa. A egreja
românica de S. Francisco não estava aberta senão de bom grado a
veria por dentro. Em frente a essa egreja encontra-se o monumento
ao Infante D. Henrique, que segundo me disse o Américo é uma
miniatura da do Marquez de Pombal em Lisboa.
Partimos às 9 e 30. Pouco adiante resàmos o terço e
chegámos a S. Salvador às 12 da noite, pouco mais ou menos.
Depois de tomar-mos conta das bagagens, recordações, encomendas,
etc, e dar-mos a Boa viagem aos que seguiam para Amonde,
dirigimo-nos para casa, eu principalmente mais morto que vivo.
Consultei o chauffer, e disse-me que percorremos ao todo 749 Kms.
São Salvador da Torre, 27/9-36,
José Joaquim Vieira da Costa.”
Nota: a transcrição destes trechos foi feita procurando manter a escrita
original, sem qualquer correcção ou adaptação às formas
usadas na actualidade.
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