Repositório de Crónicas

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O Natal da minha infância
José António Martins
Dez 2004

Celebrava-se a ceia de Natal, o mais solene banquete da minha família. O meu pai tinha chegado de França nessa mesma noite, davam-se abraços e beijos, contavam-se histórias, falava-se da neve e do frio da noite, friccionando as mãos de satisfação por nos acharmos enxutos e agasalhados, confortados, quentes, na expectativa de uma boa ceia, esperávamos sentados à volta da lareira. 

Apresentava-se a mesa com uma toalha de linho, bordada, grande e asseada, própria para estas ocasiões, os talheres de cerimónia, os copos de vidro, a caneca de porcelana fina pintada à mão quase cheia do melhor vinho tinto da última colheita. As minhas tias, iam e vinham desembaraçadas com pilhas de pratos, contando os talheres, partindo o pão, colocando a fruta na mesa. 

Lá fora o vento assobiava pelas fisgas das janelas, a chuva fustigava as vidraças, enquanto na cozinha, onde ardia a fogueira, se desprendia o aroma das pinhas mansas que abriam pela força do calor.

Num recanto da cozinha situava-se um amontoado de musgo com alinhadas figurinhas, de barros coloridos -Nossa Senhora toda fascinada e grata, S. José afastado e discreto, os Reis Magos de coroa e manto, a vaca com o seu bafo abençoado, o burro de olhar meigo - todos de parecer sorridente à volta do menino de rosa deitado em palhinhas de ouro, dentro de uma pequena cabana cercada de luzinhas de várias cores! Era um objecto de culto e admiração no qual eu coloquei todo o meu fascínio e dedicação. Era o meu presépio, tão profundamente infantil, cheio de chocolates pendurados no pinheirinho e outras coisas pitorescas e festivas.

Finalmente o bacalhau dava a derradeira fervura, as rabanadas, tinham saído da frigideira e acabavam de ser empilhadas nas travessas. Estava na hora de todos nos sentarmos à mesa.

Havia o arrastar das cadeiras, o retinir dos copos e dos talheres, o desdobrar dos guardanapos o fumegar das travessas abarrotadas de gordas postas de bacalhau, batatas cozidas e couve-galega, bebia-se o primeiro copo de vinho, estávamos todos unidos, ombro a ombro frente a frente uma cordialidade perfeita. Bom conforto… harmonioso lar. 

As sobremesas tomavam agora o lugar na mesa, deliciava-se com rabanadas, bolo-rei, pão-de-ló, creme e arroz doce. Por ultimo, os frutos secos, pratinhos de uvas passas, amêndoas, avelãs, amendoim e nozes eram postos à disposição de quem ainda tinha coragem para ingerir mais. Eu, particularmente, debruçava-me nas pinhas mansas retirando-lhe os pinhões devorando uns e guardando outros para depois de lavados serem utilizados no jogo do rapa, que consistia em fazer girar um dado atravessado por um eixo, tendo nas faces as palavras rapa, tira, deixa e põe ou suas iniciais; cada jogador, tendo girado a piorreta recolhe toda a aposta, tira apenas a sua, deixa todas ou põe o dobro do que jogou, conforme a face que ficava virada para cima.

Pela noite dentro e ao redor da lareira, o meu pai, a minha avó e as minhas tias conversavam dos mais variados assuntos, mas a recordação dos familiares que partiram deste mundo repetia-se todos os anos por esta data… curiosa esta minha recordação…Depois de me despedir de todos, e antes de me deitar, deixava o meu sapatinho junto ao presépio na esperança que o Menino Jesus se lembrasse de mim.

Hoje, no natal da infância e da adolescência dos meus filhos, apesar de ter o mesmo significado, não tem o mesmo valor ideológico, é muito materializado. A família deixou de ser uma realidade e passou a ser um mito e assim sendo cai por base todo o espírito natalício. Há quem chame a isto de progresso, eu penso que é um desprezo pelos valores mais fundamentais de uma sociedade.

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