Repositório de Crónicas

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O Milho
José António Martins
Out  2003

O trabalho na lavoura foi durante muitos anos uma actividade preponderante na vida das pessoas. Era dela que se obtinha quase toda a alimentação da família. Paira nas pessoas dessa época, uma nostalgia latente desse tempo. O stress provocado por uma condição de vida muito activa e trepidante, não existia, não se corria contra o tempo. A entreajuda era uma prática usual, na veiga as pessoas agrupavam-se, trabalhavam, cantavam e divertiam-se, transparecia uma saúde física e mental invulgar e contagiante.

Na minha opinião, o trabalho mais pitoresco dessa altura era o modo como se processava a colheita do milho até ao seu armazenamento no celeiro. Chamava-me a atenção pela sua beleza e originalidade.

As pessoas começavam a faina muitas horas antes do nascer do sol. Enquanto umas preparavam o pequeno-almoço e os afazeres da casa, outras seguiam directas para a veiga a fim de cortar o milho, levando consigo um naco de pão num bolso, uma pêra no outro e uma foicinha no ombro. Algum tempo mais tarde, chegavam as outras pessoas que tinham ficado em casa, com uma junta de bois jungidos a uma canga puxando um carro (carro de bois). Então, carregava-se o milho já cortado. Este trabalho obedecia a uma técnica para que o milho não caísse pelo caminho mas também havia esmero e presunção pelo trabalho efectuado. Eram imponentes os carros depois de carregados, teriam cerca de três metros de altura, vistos de perfil eram selados deixando salientar a frente e a traseira bem opados, qual cavaleiro levantando bem alto o seu estandarte na hora da vitória. Trazia-se para casa, e repetia-se este processo até o milho esgotar na leira.

Chegava, assim, hora de os amigos, familiares e vizinhos se unirem e ajudarem à desfolhada. Era um trabalho onde reinava a boa disposição. Enquanto se retirava as espigas de milho das respectivas maçarocas, cantava-se, ria-se, contava-se estórias e quando se achava uma espiga de milho vermelho (espiga rainha) adquiria-se o direito de beijar uma moça (ouviam-se vivas, batiam-se palmas, era uma gargalhada geral), faziam-se intervalos para comer e provar o vinho novo. Eram trabalhos que se faziam sem pressão e com uma despreocupação impensável nos dias de hoje.

Com três dias ao sol, as espigas estavam prontas para serem malhadas. Combinava-se para a madrugada o início da malhada. Numa eira com um grande monte de espigas, os malhadores colocavam-se, como que de duas equipas se tratasse, frente a frente, talvez quatro de cada lado, todos munidos com um malho. Começavam a desferir pancadas sobre as espigas. Esta batida era sincronizada e alternada, isto é, as quatro pessoas de um dos lados malhavam todas ao mesmo tempo, quando umas levantavam os malhos para tomarem balanço para a próxima batida, era a vez das outras quatro malharem.

O Malho e o Crivo

Para armazenar o milho, era necessário seca-lo, então estendia-se o milho na eira ou noutro local soalheiro até este estar bem seco. Ao fim de alguns dias de sol, as mulheres crivavam-no e guardavam-no nas respectivas caixas.

Eram cerca de cinco meses, desde a semeadura até ao seu armazenamento, num trabalho árduo onde se perdiam horas de descanso e se acumulavam sacrifícios; mas tinha de ser feito, não havia alternativa.

Gente simples, amiga, de fácil relacionamento, poupada e conservadora, com vestuário coberto de remendos, mãos escravas, faces fustigadas pelas intempéries que o tempo lhes oferecia, trabalhavam sem parar sempre por um dia melhor para seus descendentes. Estes eram os nossos pais ou os nossos avós, os fundadores da nova geração, uma geração futurista, não calculista mas sim consumista, que gasta o que tem e o que não tem. Hoje a abundância jorra ao ponto de se esbanjar supérfluos sem fim, todavia se algum dia houver necessidade de contenção nos gastos, se algum dia se voltar a precisar do campo para se sobreviver, aí o problema será sério, aí os sacrifícios e as dificuldades de sobrevivência vão-se multiplicar vezes sem conta em relação à vivência dos nossos pais e avós, resta perguntar, haverá gente que ainda sabe trabalhar o campo como outrora? Certamente que não, agora as pessoas deixam as terras e vão à procura de empregos nas fábricas e nos serviços. Os trabalhos na veiga estão nas mãos de duas ou três pessoas e são efectuados por máquinas onde a maior parte do milho é moído e ensilado. O trabalho de hoje é mais eficaz e mais objectivo, mas não é tão saudável nem tão animadamente social. È caso para dizer que a tradição já não é o que era!

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