Repositório de Crónicas

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Torre Sport Clube
José António Martins
Nov  2003

Quando se deu início aos trabalhos de terraplanagem para a construção de um campo de futebol na freguesia de Torre nos Monções, alguns populares revoltaram-se e tentaram por todos os meios impedir que o trabalho normal das máquinas de terraplanagem prosseguisse. Umas pessoas foram para o local das obras munidas de ferramentas agrícolas tentando intimidar a junta de freguesia exigindo a paragem da obra, outras deslocaram-se para a igreja paroquial, tocando o sino arrebate a fim de comover a gente da freguesia a revoltarem-se contra os ditos trabalhos. Foi preciso muita calma, muita determinação e muita frieza para que daqui nada resultasse a não ser alguns apupos e só de alguns, muito poucos, populares.

A obra fez-se, agora era necessário dar-lhe o uso para cuja finalidade nasceu.

Foram então, oito pessoas que durante vários meses se reuniram com o intuito de se formar um clube de futebol amador. Foram muitos os temas discutidos em redor da mesma causa e as conclusões unânimes foram saindo normalmente, até que se chegou seu término. Assim sendo, elaborou-se um caderno de estatutos que regeriam o TORRE SPORT CLUBE. Este foi o nome que muito se falou e hoje é ainda tema de conversa. Foi o TORRE S.C. que por todo o lado levava o nome da nossa freguesia contribuindo positivamente para que a nossa terra saísse do anonimato em que se encontrava.

Ao grupo de oito pessoas denominou-se de SÓCIOS FUNDADORES, este foi o embrião do TORRE S.C. daqui tudo se desplotou, sócios, direcção e jogadores; em suma, um clube funcional e apto a disputar o Campeonato Distrital de Futebol do distrito de Viana do Castelo.

Sócios Fundadores:

Carlindo Miguel Alves da Costa
Domingos Rodrigues Ribeiro
Trocato da Cunha Ribeiro Pitta
José António Pereira Martins
José Vieira Felgueiras
Fernando Manuel Martins Viana
Manuel Vieira Socorro
Carlindo Rodrigues Ribeiro

Presidentes Épocas  Classificação
Valentim Martins Tavares 85/86
86/87
2ª divisão
2ª divisão
José Pinto Vieira 87/88
88/89
2ª divisão
3ª divisão
Trocato da Cunha Ribeiro Pitta 89/90
90/91
3ª divisão
2ª divisão
Carlindo Rodrigues Ribeiro 91/92
92/93
2ª divisão
3ª divisão

 

 

Estava-se, então, no ano de 1985 quando o TORRES.C. participou pela primeira vez no campeonato de distrital de futebol de Viana do Castelo. Os sócios e simpatizantes juntavam-se no Campo dos Monções, quando o TORRE S.C. jogava em casa, apoiando os seus jogadores, dando-lhes gritos de incentivo, mostrar-lhes que não estavam sozinhos. É com nostalgia que me recordo do bairrismo com que presenteavam a equipa e seus dirigentes. Tudo parecia perfeito, havia união e espírito de entreajuda.

Os campeonatos foram-se sucedendo uns aos outros, o TORRE S.C. ia oscilando na tabela classificativa, mas o apoio dos torreenses não fraquejava.

Como em tudo na vida, as dificuldades acentuavam-se, havia muitas despesas como o policiamento dos jogos, os prémios aos jogadores, a água, a electricidade, as despesas burocráticas e entre outras também quando a equipa deixou de ter como base os jogadores da nossa freguesia; as receitas eram ténues, usufruía-se das receitas de bilheteira, das quotas dos sócios, de um ou doutro subsídio para o desporto de departamentos estatais ou regionais, e de uma verba anual que a junta de freguesia doava ao TORRE S.C., porém, a imaginação e a capacidade dinâmica dos corpos gerentes do clube conseguia pôr cobro ao problema financeiro com a participação num torneio realizado em França. Partiam para a França num autocarro com os porta-bagagens cheios de vinho do porto, esferográficas, porta-chaves, t-shirts e outros brindes alusivos ao clube. Tudo isto se vendia, os nossos emigrantes não olhavam a preços porque viam este “comércio” como uma ajuda para o clube que representava a sua terra; trazia-se entre mil a dois mil contos (cinco mil a dez mil euros) todos os anos que à França se deslocavam. Conseguia-se, também, uma importante receita oriunda de um torneio de futebol de cinco que todos os anos durante parte do mês de Agosto se realizavam.

Assim, foram os oito anos da existência do TORRE SPORT CLUBE. Nasceu com esperança, sobreviveu com alguma dificuldade mas muita dedicação, muito trabalho e até algum prejuízo financeiro de alguns dos seus colaboradores mais fervorosos; sucumbiu ainda em criança devido às divergências que se criaram e se alimentaram pela ânsia do poder. Numa das célebres viagens à França para a participação num torneio de futebol, o TORRE S.C. foi multado em quatrocentos e cinquenta contos (dois mil duzentos e cinquenta euros) pelo transporte indevido de vinho do porto. No meio de mais de vinte autocarros a polícia francesa foi fiscalizar só o autocarro que transportava a comitiva do TORRE S.C. numa das portagens já a mais de cem quilómetros da fronteira. Quando se chegou ao destino as pessoas que esperavam a o autocarro já sabiam do acontecido. Na altura não havia ainda telemóvel, nem houve outra possibilidade de comunicação, então também não houve complicação de tirar a conclusão mais lógica.

Quando se utiliza um bem público e não o serve de uma forma isenta de todos os interesses particulares, labutando só em prol da causa para os fins a que se destina, então, posso deduzir que as mazelas vão aparecer levando-a à sua morte. Pois foi a favor de um bairrismo pacóvio que se ultrapassou todos os limites democráticos abstraindo-se da defesa dos interesses lavrados em estatutos próprios e com uma visão de alcance reduzido foi-se cavando a sepultura do TORRE S.C. Foi um sonho lindo com uma realidade de sabor amargo, qual fogo de artifício que se extingue no céu em dias de festa.

Não sejamos os cucos da sociedade, criem-se agremiações culturais, desportivas ou de outra qualquer índole social, mas proponham-se com objectivos mais fortes…mais altos…mais longos.

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