Repositório de Crónicas

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Flores de Dezembro
José António Martins
Dez  2003

Quando o mês de Dezembro surge, a nossa sociedade envolve-se numa azáfama sem igual, para que quando se chegar à noite de Natal nada falte em nossas casas. É a festa da família. A ceia apresenta-se com o prato tradicional, bacalhau para uns, polvo para outros, peru para quem gostar e até já ouvi falar em cabrito… carne de porco…etc. Depois segue-se a sobremesa, também aqui cumpre-se a tradição escrupulosamente. Na mesa dominam os frutos secos (noz, avelã, pinhão, figo, pistacho, amendoim, uva passa …) também os doces (tortas de todas as variedades, doces folhados, doces de coco, pudins, gelatinas, rabanadas, sopas de vinho, bolo rei...) e a fruta (pêras, maçãs, mangas, ananás, bananas, romãs, uvas, …). Por ultimo, chega o momento mais solene. È o momento das prendas. Os embrulhos encontram-se junto do pinheirinho ao lado do Pai Natal. A alegria é geral. Desde o mais novo ao mais velho, todos têm presentes, para não fugir à tradição.

Tradição… que costume, hábito ou uso é este em que o Pai Natal já ultrapassou em figura central da época, o Menino Jesus? Onde as canções alusivas ao Natal são mais badaladas nos hipermercados ou centros comerciais do que nas Igrejas? Onde o espírito familiar é marginalizado pelo poder material e egoísta?

Fazem-se festivais a fim de angariar fundos para os mais necessitados, dá-se sopa aos sem abrigo dos grandes centros, as televisões documentam e fazem disto notícia, os meus aplausos. Mas será que eles só precisam nesta altura do ano? Será que eles só sentem fome nesta quadra? E nas localidades fora dos grandes centros populacionais, não haverá gente a morrer de fome e de frio? Nos anos 80 do século XX Portugal ocupava o 3º. Lugar na distribuição do número de óbitos, no Inverno, entre 18 países Europeus. Que espécie de caridade é esta que só aparece onde possa ser vista para receber aclamações elogiosas? Repugna-me este farisaísmo convulsivo.

Enquadra-se nesta altura do ano o apelo à paz entre os homens. São unânimes as vontades. Gente anónima, Igreja Católica e muitos governos do mundo unem-se rezando pela paz, também gostaria de me associar a este acto tão nobre, mas não posso rezar um dia e guerrear trezentos e sessenta e quatro, não pactuo com semelhante hipocrisia. No século I este tipo de gente foi apelidado de “raça de víboras”, gente fundamentalista que não olha a meios para atingir os fins. Penso que a paz se atingiria com o isolamento dos tiranos e não unir-se a eles por eles serem mais fortes do que nós. Numa guerra existe sempre dois lados, o lado dos bons e o lado dos maus, até hoje ainda não consegui discernir qual era o lado dos bons. Os que hoje matam por prazer, violam por gozo, cometem os maiores crimes de guerra por regozijo, no próximo natal estão a rezar pela paz. Este procedimento a mim dá-me náuseas.

São estas as flores de Dezembro. São estas as nossas atitudes.

Espero que um dia se possa viver numa sociedade mais humana que aceite os seus defeitos e defenda os seus valores, onde os ricos não sejam tão ricos e os pobres não sejam tão pobres. Que não se lute por uma paz podre. Que o Natal não seja só um dia. Que o espírito de família não seja uma recordação ou uma miragem mas sim uma realidade.

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