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Quando o mês de
Dezembro surge, a nossa sociedade envolve-se numa azáfama sem
igual, para que quando se chegar à noite de Natal nada falte em
nossas casas. É a festa da família. A ceia apresenta-se com o
prato tradicional, bacalhau para uns, polvo para outros, peru para
quem gostar e até já ouvi falar em cabrito… carne de
porco…etc. Depois segue-se a sobremesa, também aqui cumpre-se a
tradição escrupulosamente. Na mesa dominam os frutos secos (noz,
avelã, pinhão, figo, pistacho, amendoim, uva passa …) também
os doces (tortas de todas as variedades, doces folhados, doces de
coco, pudins, gelatinas, rabanadas, sopas de vinho, bolo rei...) e
a fruta (pêras, maçãs, mangas, ananás, bananas, romãs, uvas,
…). Por ultimo, chega o momento mais solene. È o momento das
prendas. Os embrulhos encontram-se junto do pinheirinho ao lado do
Pai Natal. A alegria é geral. Desde o mais novo ao mais velho,
todos têm presentes, para não fugir à tradição.
Tradição… que
costume, hábito ou uso é este em que o Pai Natal já ultrapassou
em figura central da época, o Menino Jesus? Onde as canções
alusivas ao Natal são mais badaladas nos hipermercados ou centros
comerciais do que nas Igrejas? Onde o espírito familiar é
marginalizado pelo poder material e egoísta?
Fazem-se festivais
a fim de angariar fundos para os mais necessitados, dá-se sopa
aos sem abrigo dos grandes centros, as televisões documentam e
fazem disto notícia, os meus aplausos. Mas será que eles só
precisam nesta altura do ano? Será que eles só sentem fome nesta
quadra? E nas localidades fora dos grandes centros populacionais,
não haverá gente a morrer de fome e de frio? Nos anos 80 do século
XX Portugal ocupava o 3º. Lugar na distribuição do número de
óbitos, no Inverno, entre 18 países Europeus. Que espécie de
caridade é esta que só aparece onde possa ser vista para receber
aclamações elogiosas? Repugna-me este farisaísmo convulsivo.
Enquadra-se nesta
altura do ano o apelo à paz entre os homens. São unânimes as
vontades. Gente anónima, Igreja Católica e muitos governos do
mundo unem-se rezando pela paz, também gostaria de me associar a
este acto tão nobre, mas não posso rezar um dia e guerrear
trezentos e sessenta e quatro, não pactuo com semelhante
hipocrisia. No século I este tipo de gente foi apelidado de “raça
de víboras”, gente fundamentalista que não olha a meios para
atingir os fins. Penso que a paz se atingiria com o isolamento dos
tiranos e não unir-se a eles por eles serem mais fortes do que nós.
Numa guerra existe sempre dois lados, o lado dos bons e o lado dos
maus, até hoje ainda não consegui discernir qual era o lado dos
bons. Os que hoje matam por prazer, violam por gozo, cometem os
maiores crimes de guerra por regozijo, no próximo natal estão a
rezar pela paz. Este procedimento a mim dá-me náuseas.
São estas as
flores de Dezembro. São estas as nossas atitudes.
Espero que um dia
se possa viver numa sociedade mais humana que aceite os seus
defeitos e defenda os seus valores, onde os ricos não sejam tão
ricos e os pobres não sejam tão pobres. Que não se lute por uma
paz podre. Que o Natal não seja só um dia. Que o espírito de
família não seja uma recordação ou uma miragem mas sim uma
realidade.
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