Repositório de Crónicas

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A Família na sociedade
José António Martins
Jan  2004

 

O nascimento de um bebé provoca na família uma mudança radical nos usos e costumes. Para além da alegria do crescimento do agregado familiar e da continuidade genética, passa a haver uma preocupação constante e um trabalho assíduo para que nada falte ao novo sucessor. È a primavera da vida; os primeiros dentes, as primeiras falas, os primeiros passos… tudo é novidade e é registado com agrado e satisfação. Os pais idealizam o futuro do rebento: Um dia será doutor, diz a mãe. Não, diz o pai, tem de ser engenheiro; mas apesar destas diferenças, ambos concordam que no futuro vai ser o orgulho deles. 

Os primeiros espinhos surgem com o começo da escola (pilar de sustentação da sociedade). Aprender é um trabalho árduo que requer acima de tudo força de vontade e obstinação. Ano após ano os conceitos vão-se assimilando e o aluno entra num processo de aculturação incessante, a infância e a adolescência são ultrapassadas rapidamente e defronta-se já no patamar juvenil. 

A juventude é uma fase da vida, na minha opinião, extremamente problemática. Este Estio em que as temperaturas se colocam em limiares elevados e as decisões são tomadas de ânimo leve e de cabeça quente. Esta torridez da vida leva a que muitos jovens se percam por trilhos desencontrados, e obscuros. As variantes tentaculares dos vícios são em número elevado e de fácil opção, e a juventude deixa-se levar facilmente por uma oferta de prazer gratuito ou por uma outra ramificação tentadora que lhes oferece a vivência de novas sensações e novas emoções. A aventura é o lema que rege os jovens, aqui caem pela base todos os ensinamentos que lhes foram transmitidos. É nesta altura que se diz: "Isso era no teu tempo", "o Pai está antiquado", "se não gozar agora, quando vou gozar?", "estou a trepar com isto", "tem calma que eu é que sei"… 

O tabaco, as bebidas alcoólicas, a prostituição, a droga e as companhias duvidosas são monstros de olhares estrábicos que freneticamente labutam à procura desta camada social proporcionando-lhes a degradação camuflada de uma forma habilidosamente antolhada e desejada. É aqui onde se esconde a nossa juventude. Este refúgio juvenil deve ser digladiado de tal modo que a sua proscrição não seja uma miragem. Surgem, então, em catadupa medidas repressivas. Os governos dos mais diversos países tentam apertar o cerco aos responsáveis, a sociedade, de certa forma, marginaliza os prevaricadores, as instituições de índole social diligenciam recuperar os arrependidos. Penso que este não será o curso certo na pugna a este cancro social. Penso que o mal quando está bastante enraizado é de difícil trato e de complexa solução. Com efeito, ele deve ser combatido antes de nascer, isto é, deve ser prevenido. A solução, para mim, está na família, eis pois, onde reside o âmago da questão. 

Lutando para atingir um patamar harmonioso entre todos os membros do agregado familiar, onde exista uma educação adequada e um respeito mutuo, onde ninguém faz o que quer mas sim o que é mais favorável e salutar para o bem-estar familiar; então, estará dado um passo de gigante para o "terminus" do problema. Mas para que isso aconteça ter-se-á que avivar o espírito de família, ter-se-á que redefinir o conceito "Família", ter-se-á que planear muito bem o espaço dos filhos no seio familiar. Não se pode entregar à escola a educação dos filhos, não se pode manda-los calar para se ouvir o telejornal enquanto se janta, não se pode dizer: "Logo falamos que agora estou ocupado". O diálogo é o maná da família. Devemos partilhar as alegrias deles, aconselha-los nas suas dificuldades, dar-lhes a atenção que merecem, sermos o exemplo aceso de uma vida de paz e amor. Eles não podem ser o nosso bode expiatório, nós não devemos fazer parte do problema, mas sim da solução. 

O orgulho que se desejava ter dos filhos, tem de ser construído pelos pais, a transformação de um ser minúsculo num Homem tem de ser idealizada pelos pais, nada nasce nem nada se cria sem a transformação (educação) harmonizada e necessária. Eu acredito que a base fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e mais saudável está na construção de famílias equilibradas e responsáveis. 

Esta juventude que descrevi amadurece e depressa chega à fase outonal da vida, é a etapa dos frutos, das colheitas e dos trabalhos. Esta geração vai ter os mesmos ideais e os mesmos anseios que os seus pais. A vida humana é um ciclo repetitivo, nada podemos fazer para o alterar, mas podemos, devemos e temos de o melhorar em qualidade e de lutar por uma sociedade com o equilíbrio que se exige.

 

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