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Encontramo-nos no tal período de férias, aquele que só termina
quando se chega a escassos dois meses de se ser posto à prova pela
"cruz" popular. Ninguém faz nada, ninguém diz nada é
uma apatia comum, uma atitude cómoda coadjuvada com uma acentuada
pobreza geral que estagnou ao longo do tempo e foi sobrevivendo numa
dependicite aguda irritante. Esta pobreza geral produz um
aviltamento na dignidade, todos vivemos na dependência; nunca temos
por isso uma atitude da nossa consciência, mas sim uma atitude do
nosso interesse.
Se fizermos uma retrospecção à sociedade que nos envolve
aferimos que os problemas sociais estão sempre do lado dos outros
nunca do nosso. Ouvem-se conversas:- "Isto não pode ser assim,
alguém tem de fazer alguma coisa" ou então "eu agiria,
é gozo a mais" e ainda "tu admites isso? Tens de fazer
qualquer coisa". Caro Leitor, estou a falar de problemas
públicos, de lixos que se deitam a monte fora dos locais
apropriados, de animais domésticos (cães, gatos, galinhas e até
porcos) que morrem e se deitam ao rio ou levam-nos para as
imediações dos contentores do lixo a fim de serem banqueteados
pelo ávido mosquedo, de águas sujas de uso doméstico que são
encaminhadas para as bermas das ruas, das fossas que transbordam a
céu aberto para a via pública…E as autoridades impávidas e
serenas mantêm-se no gozo da suspensão dos trabalhos oficiais,
isto é, férias sem um pingo de pudor.
A conivência é gritante e alarmante e o Código de Posturas é
uma fachada. Só agem se houver denúncia, mas sempre em
conformidade para que não haja prejuízo na contabilidade das
"cruzes" que se estão aproximando. Isto não é uma
agiotagem moral, é uma realidade que faz com que perante tal
inépcia se ruborizem as faces de qualquer pessoa civilizada. O
favorecimento e o compadrio foram técnicas de trabalho muito
utilizadas na era medieval, contudo, ainda são o único modo de
trabalho para gente de hoje com a mentalidade de outrora. Não é
preciso ser grande observador, nem de estar muito atento para se
chegar à conclusão de que os melhoramentos, as actualizações, as
construções e as reparações estão circunscritas às moradas do
amigo, do familiar, do compadre ou do membro da agremiação. Não
é que não mereçam, pois merecem sim senhor; mas quem não é
familiar, ou não é compadre, ou … não merece?
A classe política já não é recrutada pelo impulso de servir a
democracia, é uma multidão que quer viver à custa do povo
servindo-se do Estado fazendo-o burocrata e tecnocrata. Com efeito,
o progresso e o bem-estar encontram-se seriamente ameaçados. Quando
a imigração numa localidade se verifica de forma acentuada é
porque algo está mal. Alguém já se debruçou sobre este problema?
Alguém já reparou que essas pessoas compram terrenos e constroem a
habitação fora da localidade natal? Pois é, há quantos anos não
muda o Plano Director Municipal? Este sim, é o que mais impede ou
encrava o progresso de qualquer localidade. Há muitos terrenos sem
utilização porque se encontram nas malhas verdes das zonas dos
interesses de quem as rege.
Haverá interesse de mudar o PDM? Ou haverá interesse em não o
mudar como se fosse um convite às pessoas à saída para assim a
concorrência ser mais ténue e menos sólida? Se não quisermos
perder a nossa própria identidade temos de dar voz à razão, não
podemos ser dependentes dos interesses alheios, só assim combatemos
este caciquismo.
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