Repositório de Crónicas

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Penso, logo escrevo III
José António Martins
Fev  2004

 

Encontramo-nos no tal período de férias, aquele que só termina quando se chega a escassos dois meses de se ser posto à prova pela "cruz" popular. Ninguém faz nada, ninguém diz nada é uma apatia comum, uma atitude cómoda coadjuvada com uma acentuada pobreza geral que estagnou ao longo do tempo e foi sobrevivendo numa dependicite aguda irritante. Esta pobreza geral produz um aviltamento na dignidade, todos vivemos na dependência; nunca temos por isso uma atitude da nossa consciência, mas sim uma atitude do nosso interesse. 

Se fizermos uma retrospecção à sociedade que nos envolve aferimos que os problemas sociais estão sempre do lado dos outros nunca do nosso. Ouvem-se conversas:- "Isto não pode ser assim, alguém tem de fazer alguma coisa" ou então "eu agiria, é gozo a mais" e ainda "tu admites isso? Tens de fazer qualquer coisa". Caro Leitor, estou a falar de problemas públicos, de lixos que se deitam a monte fora dos locais apropriados, de animais domésticos (cães, gatos, galinhas e até porcos) que morrem e se deitam ao rio ou levam-nos para as imediações dos contentores do lixo a fim de serem banqueteados pelo ávido mosquedo, de águas sujas de uso doméstico que são encaminhadas para as bermas das ruas, das fossas que transbordam a céu aberto para a via pública…E as autoridades impávidas e serenas mantêm-se no gozo da suspensão dos trabalhos oficiais, isto é, férias sem um pingo de pudor. 

A conivência é gritante e alarmante e o Código de Posturas é uma fachada. Só agem se houver denúncia, mas sempre em conformidade para que não haja prejuízo na contabilidade das "cruzes" que se estão aproximando. Isto não é uma agiotagem moral, é uma realidade que faz com que perante tal inépcia se ruborizem as faces de qualquer pessoa civilizada. O favorecimento e o compadrio foram técnicas de trabalho muito utilizadas na era medieval, contudo, ainda são o único modo de trabalho para gente de hoje com a mentalidade de outrora. Não é preciso ser grande observador, nem de estar muito atento para se chegar à conclusão de que os melhoramentos, as actualizações, as construções e as reparações estão circunscritas às moradas do amigo, do familiar, do compadre ou do membro da agremiação. Não é que não mereçam, pois merecem sim senhor; mas quem não é familiar, ou não é compadre, ou … não merece? 

A classe política já não é recrutada pelo impulso de servir a democracia, é uma multidão que quer viver à custa do povo servindo-se do Estado fazendo-o burocrata e tecnocrata. Com efeito, o progresso e o bem-estar encontram-se seriamente ameaçados. Quando a imigração numa localidade se verifica de forma acentuada é porque algo está mal. Alguém já se debruçou sobre este problema? Alguém já reparou que essas pessoas compram terrenos e constroem a habitação fora da localidade natal? Pois é, há quantos anos não muda o Plano Director Municipal? Este sim, é o que mais impede ou encrava o progresso de qualquer localidade. Há muitos terrenos sem utilização porque se encontram nas malhas verdes das zonas dos interesses de quem as rege. 

Haverá interesse de mudar o PDM? Ou haverá interesse em não o mudar como se fosse um convite às pessoas à saída para assim a concorrência ser mais ténue e menos sólida? Se não quisermos perder a nossa própria identidade temos de dar voz à razão, não podemos ser dependentes dos interesses alheios, só assim combatemos este caciquismo.

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