Repositório de Crónicas

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Tradições
José António Martins
Abr  2004

 

O laço do passado com o presente e a transmissão de doutrinas, lendas e costumes é o que vulgarmente se denomina por tradição. Há quem defenda sem escrúpulos que é óptimo viver sempre com sabor ao passado porque é assim que se cumprem as tradições. Estes nostálgicos, para além de se mostrarem retraídos sofrem da cobiça à vista da superioridade progressista e dinâmica dos outros, fundamentando-se de uma forma excessivamente dedicada com teorias triviais. 

O fundamentalismo é um óbice à expansão ideológica, económica e cultural de uma comunidade e também um sentimento estático ou retrógrado à realidade presente, defende ainda que o mundo é arrastado pelos usos e costumes tradicionais e nunca com o ideal de se querer mais, melhor e diferente. É uma vida vivida na penumbra do passado onde a ousadia e a aventura não constam no seu dicionário.

Actualmente como outrora as tradições repetem-se, raramente no sentido de as avivar, mas porque é uma indispensabilidade ou porque é um dever de execução na resolução da lida, ou ainda porque é uma devoção actual e com futuro. Lembro-me por exemplo que se mata o porco porque se precisa de comer e também de se saber o que se come, a visita Pascal, na minha opinião, não é nem deveria ser o cumprir de uma tradição mas sim um acto de fé onde as famílias recebem simbolicamente Cristo ressuscitado em suas próprias casas e tudo o que se passa a seguir é presunção e onzenice. Alguém já se ofereceu para a comissão de festas em honra de Nª. Sra. Do Corporal a fim de realizar a tradição? Não tenho memória de tal facto, mas sei que todos os anos esses trabalhos são incumbidos a um número de indivíduos para os executar. Quase tudo o que se faz, faz-se porque a necessidade, o dever ou a obrigação assim o exige.

O lirismo foi uma corrente ideológica que não vingou, porque as pieguices e os sentimentalismos não entravam numa sociedade próspera e determinada a encarar o futuro com talento, audácia, inovação e evolução.

Não quero, nem penso, que o que de bom os nossos antepassados fizeram seja olvidado, não, deve ser aproveitado para que não passe ao desprezo e se aniquile no tempo mas inclino-me, também, que uma preparação de molde mais fácil e actualizada deve preceder, caso contrário os computadores, por exemplo, não deveriam de existir mas sim o lápis atrás da orelha como mandaria a tradição.

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