Crónicas

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Penso, logo escrevo VI
José António Martins
Setembro 2006

Sempre que me debruço para redigir um tema é porque tenho um objectivo em mente mas hoje, confesso que me deparo com alguma dificuldade em elaborar a crónica. Este meu embaraço, prende-se não motivado pelo abandono da musa inspiradora mas pela inexistência de assuntos dignos de alerta.

Longe vão os tempos dos atropelos à normalidade social, aí havia pano para mangas, a fim de poder dar largas à imaginação brincando corrigindo e alertando para situações que me pareciam anómalas.

Hoje parece que vivemos no vale das sombras, onde tudo se passa em câmara lenta com visão desfocada e distorcida. Meu Deus! Que tédio deste viver penumbrante, onde nada se passa, nada se sabe e nada se comenta; parece que se vive num Limbo onde o Paraíso está ali tão perto e o Inferno ao limiar da nossa visão mas ambos inacessíveis.

A escassez do progresso, é justificada por falta de verbas escondidas em Protocolos assinados sem data de validade, bem sustentado pela apática posição de quem poderia e deveria ser mais persistente, mais convincente e mais persuasivo. Eu sei que lutar por aquilo que nos move é francamente cansativo -mas fortalece… lembrem-se.

Os hábitos provincianos conduzem-nos a uma subordinação e vassalagem aos que repartem os dinheiros públicos. Não é armando-se em concubinas da edilidade, nem com grosseirismos, arrogância ou outro tipo de violência verbal que se leva a água ao moinho mas é, apoiados na Lei e no direito que ela nos dá em reivindicar o que nos é devido, fazendo ver, que por vezes, as verbas foram distribuídas para locais onde já foram ultrapassados os seus orçamentos.

Sei que isto não são contas do meu rosário, mas constrange-me muito ver toda esta melancolia. Outrora apelidei-a de férias hoje chamo-lhe de trabalho em “part time”.



Não queria deixar de registar aqui que me passou pelas mãos uma missiva anónima escrita em nome do povo com um “chorrilho” de palavras perversas direccionadas a uma pessoa no singular insultando-a de uma forma barata semeando objectivamente o ódio e a vingança.

Não é um modo de vida fácil e de bem-estar, fazer crítica, e se o é, é-o somente no que respeita à satisfação íntima de dizer a verdade, incidindo-se sempre numa luta constante contra a dependência de modo a não deixar de perverter a opinião. A crítica ideal é necessariamente imparcial.



Este é o meu modo de estar em sociedade, é o meu veneno mas também é o remédio do meu mal. Não pretendo com isto ser defensor de ninguém nem fiscal de nada, apenas me exponho com os meus pensamentos.

 

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